Saturday, October 6, 2007

Tive um sonho que não consigo definir. Uma planície árida coberta por cascalho vulcânico e encimada por gigantescas colunas cónicas, rugosas e esguias, aos milhares e que eu tinha de escalar uma a uma. Ao fundo da planície, um feiticeiro de unhas negras queria matar-me por qualquer motivo desconhecido de importância vital. Acho, até, que eu ia ao encontro dele porque ele tinha assassinado poucos meses antes uma pessoa muito chegada a mim. O sol era da mesma cor amarela da planície (palavra que, devido à proliferação das colunas, acaba por fazer pouco sentido) e estava a meia altura das colunas. Era muito difícil escalá-las, até porque os abutres faziam tudo para me impedir. A cara do feiticeiro ocupava o céu (amarelo como a planície e o sol).
Eu tinha a certeza que ia vencer.
Só depois de meia-hora compreendi que estava em Boston.

Thursday, October 4, 2007

a rapariga que partilha a minha vida

silêncio na cidade me atordoa
atordoado eu permaneço atento
na arqui-bancada para, a qualquer momento,
ver emergir o monstro da lagoa

a rapariga que partilha a minha vida
gosto de imaginá-la na cama de outro homem
arrogante, misógino, mal intencionado e nem sequer muito bonito
a lentidão com que isso me passa pela cabeça
e me cruza um sorriso que não consigo definir
a maneira fácil como se deixam levar
o modo intricado como os seus desejos se revelam
mas ela tem sempre vontade de se divertir (poque é feliz)
e um gosto difícil de adivinhar
portanto, a cena é:ela deitada de bruços
e, de uma maneira ou outra, o tempo faz tudo o que ela quer
ele está por cima dela de qualquer maneira
ele está acima de mim de alguma maneira
ela diz que é feliz comigo
como todos são felizes com ela
quem me dera ter diamantes para tanta prata

Sunday, August 26, 2007

Primeiro tocá-lo com luvas de veludo
Depois beijá-lo como se as glândulas salivares salvassem mil Lázaros
Finalmente meter-me dentro dele, mas ainda assim amaciá-lo devagarinho,

Permanentemente sob o efeito do encanto

O que foi feito da alma salgueirista?

Onde estão
Aqueles que deram nome aos anos
Que passaram numa caravana vermelha
Aqueles que estiveram onde tinham de estar
Que no momento e no lugar
Exactos, desarmaram a bomba no último segundo
Onde está a espada dos heróis
Que, montados em negros corcéis
Alteraram decisivamente a tendência das batalhas
Quando já tudo parecia perdido
(Nomes como o do Al-Mansor
Skanderbeg ou El Cid
O Campeador)

Onde estão
Os bolorentos vestidos rendados
Que à luz do azeite apaixonavam trovadores
Onde estão as mágicas danças do ventre
Os encantadores de serpentes
E os tapetes voadores

Onde estão
As lúbricas bacantes
Os tirsos e as flechas
Amores que celebravam a Natureza
A pele nua ou sob o tecido transparente
O sangue e o vinho e o sexo

Onde estão
Os míticos jogadores de futebol
Que, quando as coisas corriam mal para a sua equipa,
Recebiam a bola atrás da linha de meio-campo
E fintavam tudo até à baliza
Quebrando, por um mísero instante,
A supremacia arrogante
Dos colossos do Norte
E devolvendo uma réstia de orgulho
A uma cidade esquecida
(Ecos de jogos sabe-se lá de há quanto tempo...)

Onde está a Esquerda italiana

Onde está a boa e velha pornografia
Que, vinda de Itália e do remoto Leste,
Nos assaltava as casas entrando pelas janelas partidas de sótãos bafientos
Livros aleatoriamente censurados pelos ratos,
Fitas impregnadas do magnetismo dos temporais…
Meu deus, não há maior saudosismo que este!

E já agora, caralho, onde estão os supremos poetas
Do sublime género erótico-satírico
Existem? Façam-se ouvir!
Tomem o pulso a este mundo de merda
Pois não é a merda um tema tão digno como qualquer outro!?

O que aconteceu ao sec. XX
Onde estão as estrelas rock
Drogadas e excêntricas
Por onde rastejam as ratazanas nojentas,
Por onde se arrasta a indelével
Sombra,
O que foi feito
De ti,
Panchito Velazquez?

Eu falo sozinho

Quando ninguém quer ouvir
O que eu tenho para
Dizer, eu falo sozinho

Sozinho eu berro, eu mordo
Eu babo-me e fito o
Espelho com olhos vermelhos
E expressão alucinada
Eu encho o quarto de ranho
Pinto as paredes de preto
Mordo a língua, arranco os olhos
Conjecturo a maneira de matar
O meu amigo polaco

(Sou original, e
Tenho sempre ocupações
Bizarras com que posso
Exorcizar o tédio)
Eu falo sozinho, e balbucio
Palavras satisfatoriamente
Inconsequentes que nunca
Hão-de ser ouvidas por
Ninguém

E ainda bem

(Hino ao) Desaparecido em combate

Ele tinha barba
Ò Chuck Norris tão belo!
Tinhas uma grande espingarda
Libertaste o teu sargento
Perdeste o bilhete de identidade.
Toda a gente pensou que ele não se ia safar
Mas num final espectacularmente imprevisível,
Ele safou-se

Saltou do helicóptero e aterrou no lamaçal
Depois disse:

“Culpem o Canadá
Nem o Al Capone sabia em que rua ficava
Traficantes de cerveja falsificada
Que tentavam pôr cobro à lei seca
A legislação é para respeitar!
Por muito injusta que pareça...”
Publicidade na televisão
Ponto da situação:

Aparece uma gaja a dar cabeçadas numa grade com um cigarro em cada mão;
Um gajo a fumar como se estivesse a beber leite da mama da mãe, babando-se dantescamente e apresentando sintomas sérios de um ataque de epilepsia;
Gajos que acendem um cigarro com outro mas depois disso ainda dão uma última passa na beata;
Acções reaccionárias em Vegas com cenas de casinos não enevoados pelo fumo dos charutos.
Por fim apelam à carteira…

Apelam à falta de tesão
Moem-nos o juízo
E derretem-nos o coração
Com referências macacas ao suco dos beijos molhados

Viva a França!

Insinuam que existem tanques de nicotina no interior do organismo com um buraco no fundo,
Reportam as culpas a Maquiavel.