Thursday, May 31, 2007


O meu Elvis continua a ser o Elvis (não como os meus Beatles, que são os Birthay Party). Ora bem, poderia discorrer longamente sobre as mais belas mortes do rock´n´roll, mas não o farei, porque são seis e meia da manhã e não quero juntar o meu próprio nome à lista. Mas sou capaz de assegurar que a do Jeff não entraria no meu top 10, não é por aí (cantar Led Zeppelin nunca deu grande glamour a ninguém). Eu acho, pelo contrário, que a morte enegreceu o mito, ou antes, impediu-o, gosto de imaginar um Jeff a enveredar por uma estética mais soul (completamente na onda da "Everybody here wants you", do "Sketches..."), até porque a voz dele ganharia uma dimensão sem par, se isso acontecesse. Um Jeff a largar a guitarra e a deixá-la a apanhar pó. Um Jeff bêbedo e barbudo a invocar os deuses em cada canção. Um Jeff com o olhar cada dia mais triste, um olhar que reinventaria a noção que temos de triste. Um Jeff morto por volta de 2015 num quarto de hotel em Paris ou em Las Vegas, afogado na banheira a cantar, va lá, "Stairway to Heaven" (ao contrário). E evitar-se-iam cenas em capots de carros (pensei que tinham sido os Tindersticks, não seria mais apropriado?), um homem só sobe para os capots dos carros dos outros e é para os partir. Yeah! Ou seja, não me lixes, é estúpido, numa relação heterosexual, ser o homem o fã de Jeff Buckley... Mais do que estúpido, é contra-natura. Se tens uma rapariga, para que é que ouves Jeff Buckley? Meu caro, ouvir Jeff Buckley é o mesmo que ler a Gina...

JEFF BUCKLEY 1966-1997

Obrigado, Jeff Buckley, por toda a pele arrepiada nos últimos dez anos. Por todas as melosas e melodiosas sequências de montage que as tuas canções instantaneamente criam com os álbuns de recordações nas nossas cabeças. Por nos obrigares a parar o carro de madrugada, no meio do nada, só para ouvir o Lilac Wine deitado no capot e fazer disso algo de memorável. Por fazeres perdurar o mito, ao faleceres de modo tão belo, tão romântico, tão rock n' roll - quando te afundaste nas águas daquele afluente do Mississipi a berrar o Whole Lotta Love, estavas de facto a regressar aos céus. Hoje, exactamente dez anos após a tua morte, tu consolidaste-te definitivamente como o nosso ELVIS.

Tuesday, May 22, 2007

... e ao resto do mundo também

um dia, as lulas dominarão a face da Terra

Lulas psicadélicas, como baleias, no fundo do mar
lulas-elefante, invertebradas, com pernas para andar
lulas-macaco, bailarinas, matam pelo prazer de matar

Lulas pela terra, pela água e pelo ar

Morte aos meus amigos...

Morte aos meus amigos
Por nunca me terem perdoado eu ser eu,
por me terem julgado ao seu alcance

Quando eu estou muito mais longe,
para além do que eles julgam ser possível,
mais morto e mais vivo que o intangível

Pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
ou a suástica tão espessa que nenhum céu poderá atravessar

Pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
ou a nuvem negra pela qual nenhum céu poderá passar

Monday, April 30, 2007

Ninguém escreve nada. Não consigo dormir, deve ser por isso que sou o único aqui. Deve ser por isso que não vejo com clareza. Que me exprimo apenas através de auto-comiseração e sonhos falhados (não é, Huck?). Pois deve haver, quase de certeza, uma explicação. Então, porque não o facto de não conseguir dormir? É fácil e fica bem. Tira o apetite, causa dores de cabeça, afecta a concentração, etc, etc... E é bom escrevê-lo aqui porque me sinto num salão vazio. Ninguém há-de ler. É como as cidades-fantasma dos livros do Lucky Luke, ficaram desertas depois de fecharem o casino. É como um diário. É como gritar bem alto do cimo de uma montanha. É como escrevê-lo no tronco de uma árvore bem no meio de uma mata cerrada (sim, sim, sou um pervertido). É como confessá-lo a deus, num murmúrio, na escuridão do quarto. É como confessá-lo precisamente àquele que considerámos o nosso pior inimigo (deus, porque não?), num acto de loucura ou desespero, ou então pensando tirar alguma vantagem em passarmos-lhe um trunfo deste calibre. É como assinar a primeira revista pornográfica que nos vem parar às mãos. É como despejar uma garrafa de gin na banca, na boca ou na sanita. É como vomitar e limpar tudo para ninguém reparar. É como cuspir na cara de uma rapariga bonita. Mas isso até me agrada, já que os vossos textos não merecem figurar ao lado dos meus. E, mais importante do que isso, não conheço uma alma que os mereça ler. Apesar de tudo, não me sinto nada mais leve. Nem vai ser desta que eu vou conseguir dormir.

Sunday, April 1, 2007

Encontro às vezes um homem no café a que costumo ir,
um bocado afastado da minha casa
este homem, dantes, quando eu era pequeno,
ia a um outro café mais perto de minha casa
que era onde iam os assalariados da minha terra
(ao sábado à noite, principalmente)
e muitas vezes, bebia cerveja e jogava sueca com o meu pai
lembro-me que ele tinha uma filha mais ou menos da minha idade
não muito bonita, mas rechonchudinha
com o cabelo ruivo, liso, longo, impecável, e sem sardas
e creio, até, que foi a partir daí que comecei a gostar de raparigas rechonchudas e/ou ruivas
não tenho a certeza, mas acho que ele trabalha na construção civil
este homem, vejam bem, não mudou nada
baixinho, calças de ganga puídas e camisa xadrez ou às riscas
sempre com a mesma idade, uma conversa aqui e ali sobre futebol ou mulheres ou costumes
de resto, o olhar fixo no ecrâ de televisão
como se fosse o único a seguir o filme
feições belas de indefiníveis, pele trigueira e gasta, cabelo castanho claro não muito nem pouco oleoso, não muito nem pouco comprido
e a barba de quem não tem aspirações para o fim-de-semana,
quando ele ia ao outro café, lembro-me bem, fumava SG Gigante
pedia sempre à filha que fosse comprar, para não ter de tirar as mãos das cartas
eu teria, nessa altura, dez anos, ou por volta disso...
não sei porque é que ele deixou de ir àquele café e passou a ir a outro
talvez tenha mudado de casa, talvez encontre os amigos dele noutro lado.
o meu pai também deixou de ir àquele café...
adoro encontrá-lo, agora,
tanta coisa mudou, mas ele não
e eu acho que ele tem qualquer coisa de especial
porque sou eu que escrevo sobre ele, não o contrário.

Wednesday, March 28, 2007

Se eu pudesse ser qualquer personagem de ficção, nisto incluindo a literatura, a banda-desenhada, o cinema, etc..., eu queria ser, sem pensar duas vezes, Huckleberry Finn.
Porque é o mais livre de todos; porque tem um nome fixe; porque despreza o dinheiro e não tem de se preocupar com ele (e lembro, para todos os efeitos, que, a partir do final das Aventuras de Tom Swayer e durante todo o tempo narrativo das Aventuras de Huckleberry Finn, cuja acção é posterior, ele é rico); porque vive num barril; porque vive junto ao rio e vê passar navios belos; porque é um puto reguila; porque é um amigo verdadeiro, apesar de não esperar nem exigir nada de ninguém, ou precisamente por isso; consequentemente, porque é completamente independente; porque não lava a parte de trás das orelhas; porque só tem dez anos e fuma que nem um cavalo; porque anda sempre descalço; porque há-de crescer para ser um pirata e um assassino (pelo menos, esse é o sonho dele); porque não vê televisão nem sabe ler, mas de alguma forma há-de ter ouvido em algum lado histórias de piratas e assassinos; porque haverá de aprender a tocar banjo, mais cedo ou mais tarde; porque não ama ninguém; porque não tem família; porque tudo indica que se tornará um alcoólico; porque é ignorante, mas vivaço; porque aprendeu a safar-se sozinho; porque cospe na cara da assistência social, o que quer que fizesse as vezes de assistência social naqueles tempos, por aqueles lados; porque é uma espécie de Tarzan dentro da civilização; porque aprendeu tudo sozinho, inclusive a falar; porque é um poeta; porque é o maior dos poetas; porque olha para nós com aquele sorriso que quer dizer "eu sei que querias ser como eu, mas eu sou único"; porque, apesar de tudo, é condescendente com nós todos; porque basta olhar para a tia do Tom Swayer ou para a namorada do Tom Swayer para ver do que se livrou; porque, numa adaptação da Disney, quem faz de Huckleberry Finn é o Pateta; porque é ainda mais corajoso que o Tom Swayer; porque o Tom Swayer é um grande amigo e adora o Huckleberry Finn; porque tem um buço adolescente, apesar da tenra idade; porque talvez se venha a tornar um Messias, depende da categoria do álcool em que ele se meter; porque nunca vai conhecer nada além do Mississipi, mesmo que viaje por todo o mundo; porque é um herói; porque tem chapéu; porque não é racista, talvez por viver à parte da sociedade, que ainda é esclavagista; porque é naturalmente bom; porque partilha tudo o que tem, mesmo que seja nada; porque nunca teve de ir à escola; porque o céu é de todas as cores, para ele; porque é o único que não tem medo de fantasmas, apesar de eles o perseguirem; porque não gosta de dormir numa cama; porque as suas aventuras acabam cedo demais.