Tratarei de especificar aqui quais as providências a tomar para a execução de um funeral que não me faça dar voltas na campa (mesmo que eu ainda esteja cá fora). Mais tarde, tratarei de imprimir este texto e fazê-lo assinar por um notário na presença da minha alma e, essencialmente, do meu corpo.
Antes de mais, quero um anúncio na secção de necrologia do Jornal de Notícias, fornecendo todos os particulares rocambolescos da ocorrência (bateu com a cabeça num corrimão, e tal e tal...), especificando o dia e hora do funeral, mas, sobretudo, indicando no fim do artigo, "há torresmos" (o que, efectivamente, haverá, mas já lá vamos...).
Não se realizará uma missa, mas notabilizar-se-á a presença de um pregador que pronunciará as seguintes palavras: so-lavie di-le-do; so-lovie di-le-jo; he-li venco de-ho; che-li venco de-ho; malio; he-libo se-yo-man; he-libo se-yo-man; malio; malio.
Posto isto, proceder-se-á à audição de uma música dos humanos, da qual não sei o nome, mas que começa com "vou viver, até quando eu não sei..."
Posteriormente, acaba-se as merdas. É servido o copo-de-água, confeccionado, de preferência, mas não obrigatoriamente, pelo meu melhor amigo, Gonçalo, a saber:
entrada - torresmos
sopa - torresmos
prato de carne - torresmos
prato de peixe - torresmos
sobremesa - torresmos com compota de morango
vinho verde
Durante e após a refeição, deverá realizar-se a actuação de um grupo etnográfico (por favor, escolham-me alguém de jeito, não olhem a despesas, se for preciso, cobrem bilhete para o funeral), desfiando um repertório de viras minhotos como nunca antes se viu. Aqui, toda a gente, sem excepção, deverá dançar. Considerarei uma prova especial de afecto e de respeito alguém dançar em cima da minha campa (que, já agora, deverá ter uma cruz de pedra com o meu nome, data de nascimento e de óbito, nada mais).
Como é mais que óbvio, se o baile durar menos de três dias, será um funeral de merda...
Thursday, January 10, 2008
Friday, November 2, 2007
Oremos:

ORAÇÃO 1Declaro que:
Sou um artista falhado
Um escritor amputado
Um cineasta corrompido
Mas
Sou um amante reputado
Um bebedor desbragado
Um narco-preocupado.
Vem a mim, S. Miguel,
Vem a mim, S. Miguel,
Com a tua inexorável balança
E diz-me o teu parecer.
Leva-me deste meu falso pedestal,
Cobre-me a cabeça,
Lava-me os pés
E chupa-me o viril tronco.
E diz-me o teu parecer.
Leva-me deste meu falso pedestal,
Cobre-me a cabeça,
Lava-me os pés
E chupa-me o viril tronco.
ORAÇÃO 2
Folhas caducas da cirrose…
Mulheres com bonitas pestanas…
Vá lá, diz se me amas!
Convulsa e atenta na minha tosse.
Aaaahh, se a Verdade apenas fosse
Amor à luz de persianas
Até o afago da doença seria doce
E a minha tosse uma questão de semanas.
ode: contradição é beleza desviante é solidez política
HOMEM QUE É HOMEM CONTRADIZ-SE CONSTANTEMENTE
Não há nada de mais belo, amigos:
Quando emerge emerge, emergem
As doces contradições de um homem
(Um cego periscópio num lago artificial,
ou no meio de negras lanças uma câmara digi…)
e no transpirado olho da mulher – a mentirosa experiência do perfume
- a mística presença da bravura
há sinais de desbravamento de território
há venais cifrões de uma outra espessura! Nesta constatação fez-se ao Ciúme um velório.
(CONSTANTEMENTE UM HOMEM QUE É HOMEM SE CONTRADIZ)
E por isso há-de ser lembrado – não seria para nós esse incenso, meu Deus dum caralho?!...
Reside na doce contradição de um homem
A chave para a entrada VIP – um modo fascista de apropriação da Teoria do Caos
- ou seja, para o Amor, sim, o Amor . O de recorte clássico.
É que, IRRA!, deixemo-nos de merdas! – os soutiens ardem quando os touros cobrem,
Mas o rodopio desenfreado de um homem apaixonado……AAAAAHHHH, que ventos
Nos complicam a superfície, nos agudizam o contraste e puxam os vermelhos…
É que é por ser caduca que fica a PAIXÃO para a posteridade,
É por se contradizer que um homem é homem de verdade!
Não há nada de mais belo, amigos:
Quando emerge emerge, emergem
As doces contradições de um homem
(Um cego periscópio num lago artificial,
ou no meio de negras lanças uma câmara digi…)
e no transpirado olho da mulher – a mentirosa experiência do perfume
- a mística presença da bravura
há sinais de desbravamento de território
há venais cifrões de uma outra espessura! Nesta constatação fez-se ao Ciúme um velório.
(CONSTANTEMENTE UM HOMEM QUE É HOMEM SE CONTRADIZ)
E por isso há-de ser lembrado – não seria para nós esse incenso, meu Deus dum caralho?!...
Reside na doce contradição de um homem
A chave para a entrada VIP – um modo fascista de apropriação da Teoria do Caos
- ou seja, para o Amor, sim, o Amor . O de recorte clássico.
É que, IRRA!, deixemo-nos de merdas! – os soutiens ardem quando os touros cobrem,
Mas o rodopio desenfreado de um homem apaixonado……AAAAAHHHH, que ventos
Nos complicam a superfície, nos agudizam o contraste e puxam os vermelhos…
É que é por ser caduca que fica a PAIXÃO para a posteridade,
É por se contradizer que um homem é homem de verdade!
!
Saturday, October 6, 2007
Tive um sonho que não consigo definir. Uma planície árida coberta por cascalho vulcânico e encimada por gigantescas colunas cónicas, rugosas e esguias, aos milhares e que eu tinha de escalar uma a uma. Ao fundo da planície, um feiticeiro de unhas negras queria matar-me por qualquer motivo desconhecido de importância vital. Acho, até, que eu ia ao encontro dele porque ele tinha assassinado poucos meses antes uma pessoa muito chegada a mim. O sol era da mesma cor amarela da planície (palavra que, devido à proliferação das colunas, acaba por fazer pouco sentido) e estava a meia altura das colunas. Era muito difícil escalá-las, até porque os abutres faziam tudo para me impedir. A cara do feiticeiro ocupava o céu (amarelo como a planície e o sol).
Eu tinha a certeza que ia vencer.
Só depois de meia-hora compreendi que estava em Boston.
Eu tinha a certeza que ia vencer.
Só depois de meia-hora compreendi que estava em Boston.
Thursday, October 4, 2007
a rapariga que partilha a minha vida
silêncio na cidade me atordoa
atordoado eu permaneço atento
na arqui-bancada para, a qualquer momento,
ver emergir o monstro da lagoa
atordoado eu permaneço atento
na arqui-bancada para, a qualquer momento,
ver emergir o monstro da lagoa
a rapariga que partilha a minha vida
gosto de imaginá-la na cama de outro homem
arrogante, misógino, mal intencionado e nem sequer muito bonito
a lentidão com que isso me passa pela cabeça
e me cruza um sorriso que não consigo definir
a maneira fácil como se deixam levar
o modo intricado como os seus desejos se revelam
mas ela tem sempre vontade de se divertir (poque é feliz)
e um gosto difícil de adivinhar
portanto, a cena é:ela deitada de bruços
e, de uma maneira ou outra, o tempo faz tudo o que ela quer
ele está por cima dela de qualquer maneira
ele está acima de mim de alguma maneira
ela diz que é feliz comigo
como todos são felizes com ela
quem me dera ter diamantes para tanta prata
Sunday, August 26, 2007
O que foi feito da alma salgueirista?
Onde estão
Aqueles que deram nome aos anos
Que passaram numa caravana vermelha
Aqueles que estiveram onde tinham de estar
Que no momento e no lugar
Exactos, desarmaram a bomba no último segundo
Onde está a espada dos heróis
Que, montados em negros corcéis
Alteraram decisivamente a tendência das batalhas
Quando já tudo parecia perdido
(Nomes como o do Al-Mansor
Skanderbeg ou El Cid
O Campeador)
Onde estão
Os bolorentos vestidos rendados
Que à luz do azeite apaixonavam trovadores
Onde estão as mágicas danças do ventre
Os encantadores de serpentes
E os tapetes voadores
Onde estão
As lúbricas bacantes
Os tirsos e as flechas
Amores que celebravam a Natureza
A pele nua ou sob o tecido transparente
O sangue e o vinho e o sexo
Onde estão
Os míticos jogadores de futebol
Que, quando as coisas corriam mal para a sua equipa,
Recebiam a bola atrás da linha de meio-campo
E fintavam tudo até à baliza
Quebrando, por um mísero instante,
A supremacia arrogante
Dos colossos do Norte
E devolvendo uma réstia de orgulho
A uma cidade esquecida
(Ecos de jogos sabe-se lá de há quanto tempo...)
Onde está a Esquerda italiana
Onde está a boa e velha pornografia
Que, vinda de Itália e do remoto Leste,
Nos assaltava as casas entrando pelas janelas partidas de sótãos bafientos
Livros aleatoriamente censurados pelos ratos,
Fitas impregnadas do magnetismo dos temporais…
Meu deus, não há maior saudosismo que este!
E já agora, caralho, onde estão os supremos poetas
Do sublime género erótico-satírico
Existem? Façam-se ouvir!
Tomem o pulso a este mundo de merda
Pois não é a merda um tema tão digno como qualquer outro!?
O que aconteceu ao sec. XX
Onde estão as estrelas rock
Drogadas e excêntricas
Por onde rastejam as ratazanas nojentas,
Por onde se arrasta a indelével
Sombra,
O que foi feito
De ti,
Panchito Velazquez?
Aqueles que deram nome aos anos
Que passaram numa caravana vermelha
Aqueles que estiveram onde tinham de estar
Que no momento e no lugar
Exactos, desarmaram a bomba no último segundo
Onde está a espada dos heróis
Que, montados em negros corcéis
Alteraram decisivamente a tendência das batalhas
Quando já tudo parecia perdido
(Nomes como o do Al-Mansor
Skanderbeg ou El Cid
O Campeador)
Onde estão
Os bolorentos vestidos rendados
Que à luz do azeite apaixonavam trovadores
Onde estão as mágicas danças do ventre
Os encantadores de serpentes
E os tapetes voadores
Onde estão
As lúbricas bacantes
Os tirsos e as flechas
Amores que celebravam a Natureza
A pele nua ou sob o tecido transparente
O sangue e o vinho e o sexo
Onde estão
Os míticos jogadores de futebol
Que, quando as coisas corriam mal para a sua equipa,
Recebiam a bola atrás da linha de meio-campo
E fintavam tudo até à baliza
Quebrando, por um mísero instante,
A supremacia arrogante
Dos colossos do Norte
E devolvendo uma réstia de orgulho
A uma cidade esquecida
(Ecos de jogos sabe-se lá de há quanto tempo...)
Onde está a Esquerda italiana
Onde está a boa e velha pornografia
Que, vinda de Itália e do remoto Leste,
Nos assaltava as casas entrando pelas janelas partidas de sótãos bafientos
Livros aleatoriamente censurados pelos ratos,
Fitas impregnadas do magnetismo dos temporais…
Meu deus, não há maior saudosismo que este!
E já agora, caralho, onde estão os supremos poetas
Do sublime género erótico-satírico
Existem? Façam-se ouvir!
Tomem o pulso a este mundo de merda
Pois não é a merda um tema tão digno como qualquer outro!?
O que aconteceu ao sec. XX
Onde estão as estrelas rock
Drogadas e excêntricas
Por onde rastejam as ratazanas nojentas,
Por onde se arrasta a indelével
Sombra,
O que foi feito
De ti,
Panchito Velazquez?
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