No escuro do apeadeiro o meu coração
Bate no escudo do dinheiro na minha mão
É a máquina a vapor a minha dama
E o fumo a minha alma
Cinzento arroxeada como um ferida de Inverno
!
Chhiuuu…
Este é o comboio da minha vida
Repara como anda devagar, e eu entro
Cuidadosamente na carruagem do meio
Escolhida a dedo
Primeiro um pé no degrau, e depois o corpo inteiro
Nada de bagagem
Nada de medo.
O futuro é só daqui a três estações
Entretanto os carris vão ardendo e o comboio transformou-se em água mas não ferve
E já que o sentido da vida é leste
Lá fora as folhas de árvore vão chegar ao fundo do mar
No existencialismo da viagem a minha vida vai acabar
No comboio atiro desdenhosamente o bilhete pela janela.
E atenção, isto não é o poeta que diz, sou eu:
Que é quando o comboio mais me quer
Que eu lhe peço para ir mais longe.
Nunca tive amigos, nunca tive namorada e nunca tive família
Não devo nada a ninguém.
E não me leves a mal, mas sempre que penso em ti sinto um vazio no peito como se não tivesse coração.
Não sou todo eu?
A crepitar como uma folha amarelada,
A dormir com as costas geladas,
A estilhaçar o comboio?
Fundo-me na caravana
Feérico badalar de pólen no tecto
Mútuo roçagar entre o meu corpo e o veludo vermelho
(…e como a palavra “roçagar” me lembra as ondas do oceano insincero)
Oui, o meu vagão é o meu divã
E a minha mala a visão fluida, irónica e sonhadora
Quase escondida por este vidro tão sujo.
São coisas que ouvi do fundo do mar, das folhas das árvores
Profecias de lagartos esquecidos das horas.
Sunday, August 26, 2007
Friday, June 1, 2007
POESIA DA QUÊ?????

É este aquele de quem nós, outrora, fizemos escárnio
e a quem loucamente cobrimos de opróbrio?
Considerámos a sua vida uma loucura
e a sua morte uma vergonha.
Como é contado agora entre os filhos de Deus
e tem a sua sorte entre os santos?
(Sabedoria, 5:5)
Belo, sim senhor. Não me resta que agradecer os pêsames. Mas urge dizer, antes de mais, que fúria testosterónica, ou antes, disparate absoluto que, estou certo disso, ter-se-á devido apenas a um lapso momentâneo de razão ou à pressa motivada por apertos técnicos e/ou logísticos, é clamar, aos quatro ventos, que os Birthday Party não sabem tocar. É pena começar logo com uma barbaridade desse calibre, já que afecta gravemente a seriedade do que vem a seguir. Fico à espera de uma revisão de opinião, nem que, para tal, seja necessário voltar a ouvir os álbuns com mais atenção.
Quando falei em "invocar os deuses", não me referia a mulheres nem a vinho, antes a uma lírica de redenção que, não sendo, de todo, estranha ao rock´n´roll - nem ao próprio Jeff Buckley ("Grace", a música, por exemplo) - é ainda mais indispensável para quem resolver libertar os fantasmas da soul e não se chamar Joss Stone. Teria sido muito bonito, de certeza, se o Jeff Buckley se tivesse lançado num "Young Americans". É estranho que os exemplos de decadência avançados sejam duas espécies de "profetas", digamos, que não perderam em absoluto as suas capacidades artísticas (então não tínhamos já chegado à conclusão de que o "LA Woman" era precisamente o melhor álbum!?) e que não tinham muito a ver com o Jeff Buckley, a quem faltava essa aura e a quem nem sequer a morte (tão bela, romântica e rock´n´roll, para mim, como as das vítimas de Castelo de Paiva) lha emprestou. Porra, então, segundo a tua excelsa opinião, os Doors faziam o primeiro disco e já está!? Assim, à Jeff Buckley? E escusávamos de ter de ouvir "absolutas merdas" como o "Morrison Hotel", o "Strange Days" e por aí em diante... Sim, realmente, ainda bem que o Jeff Buckley, o Ian Curtis e esses gajos todos lerparam enquanto era tempo. Também não percebo a "obscuridade artística" do Jack Kerouac, mas tu, seguramente, terás a bondade de explicar. Parece que vale mais morrer aos vinte com um álbum genial do que continuar a escrever bons livros ou a fazer bons discos e morrer aos vinte e muitos / trinta e tal com o corpo absolutamente intoxicado – e, claro, um Jeff “barbudo e cambaleante” seria “grotesco”, até porque ele nasceu, por mais que te custe, para ser um ícone feminino, eternamente jovem como é (eu gosto muito do Jeff Buckley, mas nunca conheci uma rapariga que não gostasse, pelo menos, tanto como eu; em contrapartida, nenhuma gosta mais de ZZ Top do que eu. É assim a vida...). O que nos leva ao assunto do capot e afins. Eu não quis diminuir uma cena que, na altura, achei realmente que tinha percebido o quanto foi especial - e, acima de tudo, fiquei lisonjeado por teres decidido partilhar COMIGO. Apenas manifestei a minha admiração por ela envolver Jeff Buckley. Pois eu, de facto, acho que é quase uma masturbação ouvir Jeff Buckley. E, não sendo um particular adepto de sessões de masturbação em grupo (ao contrário de outros membros do blog), só ouço Jeff Buckley quando estou sozinho (e acocorado na escuridão, claro). Sinto-me nu se, por acaso, calha de ouvir acompanhado (como aconteceu algumas vezes em Itália). O Jefferson Buckley é a minha Gina. Pode não ser de homem, mas é mais de homem do que impingi-lo às meninas. Não deixa de ser um truque baixo. Aliás, nem escreveria sobre ele se soubesse que este post iria ser lido por raparigas.
-Ah, e obrigado pelo bom conselho, mas, considerando que todos os capots do mundo me serão sempre alheios (sim, eu percebi que era uma metáfora, mas isto também é), creio que nunca chegarei a ser um verdadeiro homem. As defense, i´m neutered and spayed; what the hell am i trying to say?
Quando falei em "invocar os deuses", não me referia a mulheres nem a vinho, antes a uma lírica de redenção que, não sendo, de todo, estranha ao rock´n´roll - nem ao próprio Jeff Buckley ("Grace", a música, por exemplo) - é ainda mais indispensável para quem resolver libertar os fantasmas da soul e não se chamar Joss Stone. Teria sido muito bonito, de certeza, se o Jeff Buckley se tivesse lançado num "Young Americans". É estranho que os exemplos de decadência avançados sejam duas espécies de "profetas", digamos, que não perderam em absoluto as suas capacidades artísticas (então não tínhamos já chegado à conclusão de que o "LA Woman" era precisamente o melhor álbum!?) e que não tinham muito a ver com o Jeff Buckley, a quem faltava essa aura e a quem nem sequer a morte (tão bela, romântica e rock´n´roll, para mim, como as das vítimas de Castelo de Paiva) lha emprestou. Porra, então, segundo a tua excelsa opinião, os Doors faziam o primeiro disco e já está!? Assim, à Jeff Buckley? E escusávamos de ter de ouvir "absolutas merdas" como o "Morrison Hotel", o "Strange Days" e por aí em diante... Sim, realmente, ainda bem que o Jeff Buckley, o Ian Curtis e esses gajos todos lerparam enquanto era tempo. Também não percebo a "obscuridade artística" do Jack Kerouac, mas tu, seguramente, terás a bondade de explicar. Parece que vale mais morrer aos vinte com um álbum genial do que continuar a escrever bons livros ou a fazer bons discos e morrer aos vinte e muitos / trinta e tal com o corpo absolutamente intoxicado – e, claro, um Jeff “barbudo e cambaleante” seria “grotesco”, até porque ele nasceu, por mais que te custe, para ser um ícone feminino, eternamente jovem como é (eu gosto muito do Jeff Buckley, mas nunca conheci uma rapariga que não gostasse, pelo menos, tanto como eu; em contrapartida, nenhuma gosta mais de ZZ Top do que eu. É assim a vida...). O que nos leva ao assunto do capot e afins. Eu não quis diminuir uma cena que, na altura, achei realmente que tinha percebido o quanto foi especial - e, acima de tudo, fiquei lisonjeado por teres decidido partilhar COMIGO. Apenas manifestei a minha admiração por ela envolver Jeff Buckley. Pois eu, de facto, acho que é quase uma masturbação ouvir Jeff Buckley. E, não sendo um particular adepto de sessões de masturbação em grupo (ao contrário de outros membros do blog), só ouço Jeff Buckley quando estou sozinho (e acocorado na escuridão, claro). Sinto-me nu se, por acaso, calha de ouvir acompanhado (como aconteceu algumas vezes em Itália). O Jefferson Buckley é a minha Gina. Pode não ser de homem, mas é mais de homem do que impingi-lo às meninas. Não deixa de ser um truque baixo. Aliás, nem escreveria sobre ele se soubesse que este post iria ser lido por raparigas.
-Ah, e obrigado pelo bom conselho, mas, considerando que todos os capots do mundo me serão sempre alheios (sim, eu percebi que era uma metáfora, mas isto também é), creio que nunca chegarei a ser um verdadeiro homem. As defense, i´m neutered and spayed; what the hell am i trying to say?
A POESIA DA RAZÃO,ou OH MEU CARO AMÂNDIO, OS MEUS PÊSAMES, MAS...
"O dom que possuímos de ver semelhanças não é senão um frágil vestígio da violenta coacção a que estávamos sujeitos outrora, para sermos semelhantes e para assim nos comportarmos."
Walter Benjamin
-Ao contrário do Elvis, o Jeff sabia cantar. E ao contrário dos Birthday Party, sabia tocar.
-Concordo que a morte tenha sido demasiado prematura para, em condições naturais, se tornar mítica. Mas de facto assim aconteceu, e isso não enegreceu o mito. Tal como o Jean Vigo, o Ian Curtis ou o Mark Sandman, ele morreu num ponto de criatividade ímpar, deixando genial obra póstuma. Isso é morrer sem mácula, ao contrário, por exemplo, do Jim Morrison ou do Jack Kerouak, que «esticaram» e desgastaram demasiado as suas esferas, criando absolutas merdas, morrendo, aí sim, em obscuridade artística.
-Se estivesses mais atento, ou disparasses toda essa testoterónica fúria (comparável, em TODOS os aspectos, à de Aquiles...) para outra direcção, repararias que ele já invocava os deuses (mulheres, céu, vinho), e para lá do ébrio, em quase todas as canções.
-A graça do "Everybody here wants you" está em precisamente ser um pequeno cometa (e uma enorme jóia) no cancioneiro dele. Não me parece que seja uma boa forma de exercer o poderio lírico que estava então em jogo - ao contrário do que afirmas, eu acho que a voz dele ganha mais quando tem a possibilidade entrar em cascatas, indo a praticamente todas as escalas, como no "Lover, you should...". E a imagem de um barbudo cambaleante a entoar tão delgado falseto parece-me, no mínimo, grotesca.
-E deixa-me dizer-te uma coisa, algo que cada ano que ostento em cima do lombo-carcaça me ensinou, e que te poderá ajudar: há momentos para te deitares no capot sozinho a olhar para nada; há também momentos para lá te deitares com alguém, debaixo de muito céu; e sim, eu diria que fora essas duas excepções, um homem só salta para um capot se este for alheio e não estiver destinado a perdurar para lá dessa noite. Mas a vida de um verdadeiro homem, meu caro amigo, nunca estará completa enquanto não passar, pelo menos, por essas três experiências. Lembra-te sempre disso.
-Ah, e outra coisa: um verdadeiro homem não LÊ a Gina...
Walter Benjamin
-Ao contrário do Elvis, o Jeff sabia cantar. E ao contrário dos Birthday Party, sabia tocar.
-Concordo que a morte tenha sido demasiado prematura para, em condições naturais, se tornar mítica. Mas de facto assim aconteceu, e isso não enegreceu o mito. Tal como o Jean Vigo, o Ian Curtis ou o Mark Sandman, ele morreu num ponto de criatividade ímpar, deixando genial obra póstuma. Isso é morrer sem mácula, ao contrário, por exemplo, do Jim Morrison ou do Jack Kerouak, que «esticaram» e desgastaram demasiado as suas esferas, criando absolutas merdas, morrendo, aí sim, em obscuridade artística.
-Se estivesses mais atento, ou disparasses toda essa testoterónica fúria (comparável, em TODOS os aspectos, à de Aquiles...) para outra direcção, repararias que ele já invocava os deuses (mulheres, céu, vinho), e para lá do ébrio, em quase todas as canções.
-A graça do "Everybody here wants you" está em precisamente ser um pequeno cometa (e uma enorme jóia) no cancioneiro dele. Não me parece que seja uma boa forma de exercer o poderio lírico que estava então em jogo - ao contrário do que afirmas, eu acho que a voz dele ganha mais quando tem a possibilidade entrar em cascatas, indo a praticamente todas as escalas, como no "Lover, you should...". E a imagem de um barbudo cambaleante a entoar tão delgado falseto parece-me, no mínimo, grotesca.
-E deixa-me dizer-te uma coisa, algo que cada ano que ostento em cima do lombo-carcaça me ensinou, e que te poderá ajudar: há momentos para te deitares no capot sozinho a olhar para nada; há também momentos para lá te deitares com alguém, debaixo de muito céu; e sim, eu diria que fora essas duas excepções, um homem só salta para um capot se este for alheio e não estiver destinado a perdurar para lá dessa noite. Mas a vida de um verdadeiro homem, meu caro amigo, nunca estará completa enquanto não passar, pelo menos, por essas três experiências. Lembra-te sempre disso.
-Ah, e outra coisa: um verdadeiro homem não LÊ a Gina...
Thursday, May 31, 2007

O meu Elvis continua a ser o Elvis (não como os meus Beatles, que são os Birthay Party). Ora bem, poderia discorrer longamente sobre as mais belas mortes do rock´n´roll, mas não o farei, porque são seis e meia da manhã e não quero juntar o meu próprio nome à lista. Mas sou capaz de assegurar que a do Jeff não entraria no meu top 10, não é por aí (cantar Led Zeppelin nunca deu grande glamour a ninguém). Eu acho, pelo contrário, que a morte enegreceu o mito, ou antes, impediu-o, gosto de imaginar um Jeff a enveredar por uma estética mais soul (completamente na onda da "Everybody here wants you", do "Sketches..."), até porque a voz dele ganharia uma dimensão sem par, se isso acontecesse. Um Jeff a largar a guitarra e a deixá-la a apanhar pó. Um Jeff bêbedo e barbudo a invocar os deuses em cada canção. Um Jeff com o olhar cada dia mais triste, um olhar que reinventaria a noção que temos de triste. Um Jeff morto por volta de 2015 num quarto de hotel em Paris ou em Las Vegas, afogado na banheira a cantar, va lá, "Stairway to Heaven" (ao contrário). E evitar-se-iam cenas em capots de carros (pensei que tinham sido os Tindersticks, não seria mais apropriado?), um homem só sobe para os capots dos carros dos outros e é para os partir. Yeah! Ou seja, não me lixes, é estúpido, numa relação heterosexual, ser o homem o fã de Jeff Buckley... Mais do que estúpido, é contra-natura. Se tens uma rapariga, para que é que ouves Jeff Buckley? Meu caro, ouvir Jeff Buckley é o mesmo que ler a Gina...
JEFF BUCKLEY 1966-1997
Obrigado, Jeff Buckley, por toda a pele arrepiada nos últimos dez anos. Por todas as melosas e melodiosas sequências de montage que as tuas canções instantaneamente criam com os álbuns de recordações nas nossas cabeças. Por nos obrigares a parar o carro de madrugada, no meio do nada, só para ouvir o Lilac Wine deitado no capot e fazer disso algo de memorável. Por fazeres perdurar o mito, ao faleceres de modo tão belo, tão romântico, tão rock n' roll - quando te afundaste nas águas daquele afluente do Mississipi a berrar o Whole Lotta Love, estavas de facto a regressar aos céus. Hoje, exactamente dez anos após a tua morte, tu consolidaste-te definitivamente como o nosso ELVIS.Tuesday, May 22, 2007
... e ao resto do mundo também
um dia, as lulas dominarão a face da Terra
Lulas psicadélicas, como baleias, no fundo do mar
lulas-elefante, invertebradas, com pernas para andar
lulas-macaco, bailarinas, matam pelo prazer de matar
Lulas pela terra, pela água e pelo ar
Lulas psicadélicas, como baleias, no fundo do mar
lulas-elefante, invertebradas, com pernas para andar
lulas-macaco, bailarinas, matam pelo prazer de matar
Lulas pela terra, pela água e pelo ar
Morte aos meus amigos...
Morte aos meus amigos
Por nunca me terem perdoado eu ser eu,
por me terem julgado ao seu alcance
Quando eu estou muito mais longe,
para além do que eles julgam ser possível,
mais morto e mais vivo que o intangível
Pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
ou a suástica tão espessa que nenhum céu poderá atravessar
Pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
ou a nuvem negra pela qual nenhum céu poderá passar
Por nunca me terem perdoado eu ser eu,
por me terem julgado ao seu alcance
Quando eu estou muito mais longe,
para além do que eles julgam ser possível,
mais morto e mais vivo que o intangível
Pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
ou a suástica tão espessa que nenhum céu poderá atravessar
Pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
pensem em mim como o pedaço de céu que vos é dado a tocar
ou a nuvem negra pela qual nenhum céu poderá passar
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