Wednesday, March 21, 2007

Momentos dignos de um Brompton Cocktail#4

Estás no escuro da sala de cinema. Ela também, ao teu lado. De vez em quando espreitas pelo canto do olho, ou mexes-te desajeitadamente, dás-lhe um toque com o cotovelo e pedes logo desculpa - e olhas outra vez, para (pensas tu) analisares a reacção. Mas ela ajeita os óculos ou o cabelo, e tu não fazes ideia do que isso quer dizer. As tuas palmas têm o suor da Primavera - o suor primaveril de uma tarde numa sala de cinema. Inesperadamente, reparas pelo teu raio de visão que ela virou a cabeça para ti. E tu de repente, com o coração aos pulos, levantas-te, seguras-lhe a cara com as mãos, e beija-la com brusquidão. E ela responde-te, assim, no mesmo tom. Um beijo nas cadeiras centrais de uma sala de cinema que lembra o sol que está lá fora.
O filme era o 'Eclipse' do Antonioni.

Friday, March 16, 2007

estou farto de desejar que o tempo passe depressa
anseio a sua lassidão e ficar a vê-lo correr
como o jogo da última cadeira e o jornal de segunda-feira
a minha mulher que fugiu e o ditador a morrer

e há sempre uma canção que tange na minha alma
e há sempre uma corda que ressoa na minha calma
quando a tarde chega e as pessoas bebem martinis
quando o sol parece longe e as tipas vestem biquinis

mas a minha

Tuesday, March 13, 2007

Mafarrico - Para Luiz Pacheco

O mafarrico ao menos de amor é rico. Deus falou com o mafarrico, o mafarrico disse: 'Não sei se fico.'
Provando do sangue um salpico, para um desvio se desviou o mafarrico. 'Vou ver até onde estico.', bradou das trevas o mafarrico.
O amor de Deus é um penico, considerava um apreensivo mafarrico. O mafarrico defendia: 'Amas a Deus com uma cruz, ou a mim com um bico.'

Mas se de amor é rico este grande mafarrico, que será da minha vida, se intelectualmente tenho sida? Ou graças ao que penso e pratico, serei eu o mafarrico?


Sunday, February 11, 2007

Momentos dignos de um brompton cocktail #3

Pensas na Diana Ventura e ela cai-te na sopa. Está sóbria como um besouro do Caramulo e, ao cair, o chape-chape dos seus bracinhos a querer executar um estilo mariposa suicida espalha as couves que vêm cair no teu cocuruto, enfeitando-te os cabelos como grinaldas. Na rádio ouve-se os Pedra d´Água na sua interpretação portentosa de uma imerecidamente esquecida canção popular cujo refrão reza: "Arreia as calças, gabirú!" E tu obedeces.

Wednesday, February 7, 2007

Momentos de um Brompton Cocktail #2


Vives num apartamento de um edifício velho e arruinado, pedra branca e roupa a secar. Todas as janelas dão para um átrio. É domingo de manhã (Inverno), e um homem de 32 anos, calções azuis e camisola caviada branca faz elevações numa barra de ferro frio dentro de sua casa. A tua janela está diante deste cenário, no lado oposto da átrio, e tu estás encostada a beber um chá de tília. No rádio toca 'Dirt in the Whirlwind' dos TV On The Radio. Na tua fronte, uma gota de suor.

Momentos dignos de um Brompton Cocktail #1:

Estavas num carro a fumar um cigarro. Olhaste para o carro em frente, estacionado na chuva, e o pequeno cão que estava aprisionado em cima daquela placa felpuda e cinzenta que cobre a mala traseira olhou-te nos olhos. O rádio passava 'Always crashing in the same car' do David Bowie. Nem reparaste no dono a chegar.

Ode ao doce vinho

Ao doce vinho, liricamente testado, eu ofereço borboletas do passado. Passada a selvajaria do whisky, eu digo: “Provem do meu doce vinho, seus papalvos.” O jazz passa a trote na rua destemido, nós temos jantes nos ouvidos. Olhamos para os mesmos olhos que outrora, agora com mais paixão, voltamos dos mortos, delícias macabras do deserto. Esfíngicas solidões destemidas, as que enfrentamos sem ponta de prazer.
É um certo vinho que nos mantém de pé, que nos faz apontar de modo geracional, foder de modo responsável, conduzir a alta velocidade RUM-TA-TUM-TUM-TUM pelo meio dos sofás dos camiões de todos os Selenitas de todas as luas.
Este doce vinho é uma demonstração de poder. É este o motor, rumo ao alvo esquecimento de louvados e engenhosos suores, jornadas de peito aberto à espera do redentor cachimbo, ou fumegante minério que redirecciona redenções ao metro.
No doce vinho nos aviamos de prazer, prazer que de modo obscuro, saído da miserável condição de trompetista dos Tindersticks, nos dissolve na massa anónima que é a embriaguez cibernáutica after-hours de época baixa e bissexta.